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Consciência mítica e a consciência filosófica

O gênero humano desenvolve de tal modo sua consciência no tempo que chega um momento onde não basta sentir o mundo criando valores (mitos) sobre o mundo. Surge o desejo de descobrir as leis que regem o nosso mundo, a querer entender o mundo de modo ra­cional.
Nesse sentido, podemos afirmar que a filosofia se opõe ao mito, pois a consciência filosófica não se limita a sentir o mundo. É sua ambição interpretá-lo de modo racional para, em seguida, questionar a realidade. Enquanto o mito, através de estórias e crenças, contribuía para o ser humano aceitar o mundo e se adaptar, a filosofia luta por descobrir o porquê das coisas e a possibilidade de lhes modificar a ordem.

Daí a importância da antiga civilização grega clássica (± 300 a. c.); é a primeira vez que um grupo humano deixa de se guiar apenas pela consciência mítica para ter uma consciência crítica da realidade. Pitágoras foi quem pela primeira vez forjou a palavra filosofia, que pode ser traduzida como sendo a atitude de "amor à sabedoria". Nesse sentido, podemos dizer que a consciência filosófica é um modo de pensar que pretende sempre buscar a verdade. Para isso, a postura básica é duvidar de todo conhecimento já instituído.

Um dos mais importantes filósofos da Grécia, Sócrates, afirmava que não existe no mundo conhecimento pronto, acabado e que se desejamos chegar à raiz do conhecimento, devemos - em primeiro lugar - criticar o que já conhecemos.

O método socrático de buscar a verdade constitui-se em duas etapas fundamentais: a ironia e a maiêutica. Na primeira etapa, deve­mos desenvolver perguntas sobre aquilo que já é tido como o conhe­cimento verdadeiro. Perguntas bem-formuladas nos levariam a duvidar daquilo que já conhecemos para, na segunda etapa, podermos construir um conhecimento novo que no futuro seria de novo questionado, dando origem a outro dado do conhecimento, e assim por diante.

Nesse sentido, afirmamos que a filosofia é uma tentativa de en­tender o mundo racionalmente, contribuindo para o desenvolvimento de uma postura que procura sempre questionar as certezas antigas na busca de novas certezas.

Interessa muito relembrar que a consciência filosófica se desen­volve no seio duma sociedade (Grécia) já dividida entre escravos e senhores. Isso implica a divisão entre aqueles que produzem e aqueles que usufruem o produzido; aqueles que organizam e dirigem e aqueles que são dirigidos. Por isso, a filosofia não será atividade criativa ao alcance de todos: as mulheres gregas e os escravos estarão dela ex­cluídos. Nasce a hierarquização do saber: isto é, a sociedade se divide entre aqueles que podem saber muito (os senhores que eram filósofos), aqueles que podem saber um pouco (apenas senhores) e aqueles que não devem saber quase nada (mulheres e escravos).

Se na sociedade tribal o saber é comunitário, isto é, todos apren­dem e ensinam, nas primeiras sociedades complexas e ainda hoje o saber é privilégio de alguns. Percebemos que quanto mais se desen­volvem as sociedades, maior é a divisão entre os que podem aprender e aqueles que não podem. É nesse momento que a educação passa a não ser a mesma para todos; teremos de um lado a educação do senhor, que ó levará a ser dominador, e, de outro, a educação do escravo, que o levará a ser dominado. Aqui a educação se altera profundamente, pois deixa de ser meio de fazer com que todos tenham acesso ao mesmo saber e a uma vida comunitária, para legitimar e aumentar as desi­gualdades.

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