O curso de Sociologia no Brasil voltou a ser ministrado na escola de 2° grau e a ser definido como fundamental na construção do direito à cidadania. Mas o fato de ter sido mantida fora dos currículos escolares por mais de duas décadas, além de ter causado danos irreparáveis às gerações que freqüentaram o 2° grau nesse período, leva a que a reintrodução da Sociologia seja um tanto problemática. Um dos grandes desafios da política educacional de hoje é tornar a disciplina obrigatória na escola de 2° grau, uma vez que, como optativa, não é ministrada em todas as escolas. Com isso, o número de aulas de Sociologia ainda é infinitamente menor que o das outras disciplinas, o que leva a ser vista por muitos como um conjunto de aulas complementares para professores com outras habilitações que não Ciências Sociais.
Além disso, em grande parte das escolas, a Sociologia não é ministrada por licenciados em Ciências Sociais, o que leva a que o conteúdo não seja desenvolvido em sua especificidade. Se é ministrada, por exemplo, por licenciados em História ou Pedagogia, há o risco de, no desenvolvimento do conteúdo, o peso maior recair em uma concepção histórica ou pedagógica das relações sociais. Para garantir sua especificidade é necessário que a disciplina Sociologia seja ministrada por um especialista da área que requer que ela se torne obrigatória no currículo da escola de 2° grau, entre outras coisas.
Quanto à forma com que o curso vem sendo ministrado nesses últimos anos, parece que os professores, em sua quase totalidade, pretendem desenvolver a disciplina de modo a propiciar uma leitura crítica da vida social. Por isso e para isso, ressaltam a importância de partir da realidade e dos interesses vividos pelos alunos. Ao analisarmos a prática docente, porém, percebemos que nem sempre esse objetivo é alcançado. Isso porque, além dos problemas já levantados, a grande maioria dos professores de hoje foi formada sob a reforma universitária (5.540/68), numa época de extrema desvalorização da disciplina no cenário educacional. Por isso, falta-lhes maior clareza do que seria o conteúdo e método para o ensino de Sociologia no 2° grau. Nesse quadro, percebemos que, em linhas gerais, prevalecem dois tipos de cursos de Sociologia, que classificaríamos simplificadamente por:
- tendência conceitual e linear - caracteriza-se por um programa centrado em conceitos apreendidos de modo isolado, como entidades que por si sós definiriam as partes das quais a sociedade se compõe. A visão de totalidade consistiria na soma dos conceitos - o que resulta em uma visão linear, na qual as relações sociais aparecem como não contraditórias.
- tendência temática fragmentada - caracteriza-se por um curso temático, no qual, no lugar das palavras-chaves, elenca-se uma série de temas considerados básicos - cujas partes, também somadas, originariam uma pretensa totalidade social.
Tanto uma como outra dessas tendências apresentam graves problemas, e portanto devem ser evitadas na estruturação de um curso de Sociologia que se pretenda crítico. Isto porque, ao valorizar a apreensão isolada do significado de um conceito ou de um tema, acaba-se por desvinculá-lo da realidade histórica em que foi produzido - o que leva obrigatoriamente o aluno a uma postura de mera memorização dos conteúdos. Cursos assim, desordenados e fragmentados, reproduzem o senso comum, que vê a Sociologia como uma ciência cujo conhecimento é adquirido (e mesmo produzido!) de forma evolutiva, através da mera soma de palavras ou temas apreendidos pelos alunos. São cursos em que os conceitos ou temas nem sempre aparecem sistematizados a partir de uma concepção histórica, nem mesmo relacionados entre si numa seqüência lógica, o que leva à concepção da totalidade social como uma soma de partes diferentes entre si. Ao contrário, a totalidade que pretendemos atingir por meio da nossa proposta deve ser entendida como processo em contradição - o que não significa uma soma das partes, mas, antes, uma inter-relação entre elas, na qual uma das partes pode também negá-la, ao explicar a outra.
A proposta do conteúdo que apresentamos pretende proporcionar um curso de Sociologia em que os conceitos e temas formam uma rede de relações, ou melhor, um processo, no qual a compreensão de um conceito ou tema deve ser mediada pela compreensão do conteúdo subseqüente. Assim, não é possível a supressão de uma de suas partes, nem a sua fragmentação em uma lista de palavras ou conceitos a serem apresentados aos alunos. A proposta de curso apresentada na seqüência deve contribuir para que tanto professores como alunos percebam o desenvolvimento social como um processo em contradição, não necessariamente ligado ao equilíbrio e à harmonia. Tentamos sempre que possível não "naturalizar" a realidade social; ao contrário, mostrá-la como produto de uma ação civilizadora, resultado de longo processo histórico contlitivo, no qual grupos humanos se complementam ao mesmo tempo que se antagonizam em situações históricas determinadas.
Maravilhoso e esclarecedor o texto do autor do mesmo. Parabéns contribuiu muito para o meu aprendizado sobre o tema elencado.
ResponderExcluirOlá amigo!
ResponderExcluirFico contente que lhe tenha sido útil o texto!
Obrigado por comentar, e volte sempre ao blog!